- Ei, posso te pedir uma coisa?
- O que você quiser.
- Vê se não estraga tudo dessa vez.
- Tá, eu vou tentar.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Vírgula. Pausa na semana. Desmaio no táxi. Suas mãos me salvam. Psiquiatras em demasia. Ar rarefeito. Sua poesia me salva. Medo de atravessar a rua. Não vou mais atravessar ruas, parei. Revivo meu passado na mesa do jantar. Meu desmoronamento inevitável. Panquecas de carne. Seus beijos me salvam. Pesadelo um, dois três e quatro. Minhas pernas estão adormecidas. Não sinto nada, não consigo parar em pé. Descanso. Um livro bom, uma música calma, eu, você, as panquecas. Níveis de serotonina equilibrados. Olho no espelho. Eu não sou mais nada daquilo que achava que eu era. Mas não posso me recolher agora, é hora de seguir em frente. Fui.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Só as mães são felizes!
Agora entendo porque nos meus aniversários minha mãe sempre conta a mesma história, sobre o dia em que nasci. É quase um ritual materno. Hoje meu filhinho completa 5 anos e eu não consigo parar de pensar naquela noite quente de terça-feira em Campinas, mais precisamente dia 30 de novembro de 2004.
As últimas semanas tinham sido bem duras. Eu estava uma grávida ótima, magra, saudável, cheia de ideias, mas já não aguentava mais aquele barrigão e aquela curiosidade para ver logo a carinha de um bebê que se chamaria João. Eu amava o pai dele e estava sofrendo horrores por este amor. Mesmo assim, havia uma felicidade, acho que era a vida nova que insistia em palpitar dentro de mim.
Daí foi o de sempre: passei mal, liguei para a minha médica. Ela disse que eu estava em trabalho de parto. Corri pro hospital. Não pude ter parto normal, voei pra cesária. Não senti nada, só via um pano branco na minha frente a cara do pai do João, mais branca do que o pano. Às 22h14 eu vi pela primeira vez o rostinho enrugado daquele bebezinho que acabara de sair da minha barriga.
O que ficou da maternidade, lembro algumas coisas. João era preguiçoso e não queria mamar de jeito nenhum e por isso meu leite também não vinha (porque uma coisa leva à outra). Eu fiz de tudo praquele bichinho pegar meu peito. Puxei o leite, esguichei na cara dele, insisti tanto que fiquei com o peito todo machucado. Quando ele finalmente gostou da coisa, as enfermeiras aplaudiram e disseram que eu era uma guerreira, que já viram muitas mães desistirem de dar o peito. Eu me achei.
Eu amava o pai do meu filho e nós não estávamos namorando naquela época. Mas ele ficou ao meu lado o tempo todo. Me lembro da primeira noite em que dormi na maternidade. A anestesia acabou e meu corte começou a doer pra caralho. Eu olhava na cama do lado e ele dormia numa tranquilidade, eu não sei porque comecei a chorar muito, chorava por ele, pela dor no corte. Hoje vi que eu estava apavorada com tudo aquilo. Essa é a real.
Me lembro do exato momento em que peguei o joão nos braços e pensei: "pra sempre, cara! eu e você". Lembro do meu pai me beijando a testa e dizendo que sempre soube que eu seria uma ótima mãe. Puta merda, ele morreria oito meses depois. Como eu queria que ele estivesse aqui hoje. Ah, e o vestido rosa. Eu saindo da maternidade com um vestido rosa e um peito cheio de leite. Nos meus braços, um bebezinho franzino e calmo. Parece que faz um século que isso aconteceu.

Mas são exatos cinco anos hoje. Cinco anos e muuuuita coisa. Muita batalha, rotina e troca, principalmente nos últimos três anos. Muito orgulho do cara bacana que você está se tornando a cada dia. Eu e você, São Paulo, escola, trabalho, pulos no sofá. Você tagarela, eu às vezes melancólica. A gente caminhando pela Vila Madalena de mãos dadas todos os dias, descobrindo as árvores e os nomes dos cachorros da vizinhança. Ou lendo livros na Mercearia, ou apostando corrida até o elevador. Recolhendo o lixo na pracinha. Dormindo no meio do filme, cantando e inventando músicas. João, meu amor: por você não há o que eu não faça. Parabéns. Eu te amo.
As últimas semanas tinham sido bem duras. Eu estava uma grávida ótima, magra, saudável, cheia de ideias, mas já não aguentava mais aquele barrigão e aquela curiosidade para ver logo a carinha de um bebê que se chamaria João. Eu amava o pai dele e estava sofrendo horrores por este amor. Mesmo assim, havia uma felicidade, acho que era a vida nova que insistia em palpitar dentro de mim.
Daí foi o de sempre: passei mal, liguei para a minha médica. Ela disse que eu estava em trabalho de parto. Corri pro hospital. Não pude ter parto normal, voei pra cesária. Não senti nada, só via um pano branco na minha frente a cara do pai do João, mais branca do que o pano. Às 22h14 eu vi pela primeira vez o rostinho enrugado daquele bebezinho que acabara de sair da minha barriga.
O que ficou da maternidade, lembro algumas coisas. João era preguiçoso e não queria mamar de jeito nenhum e por isso meu leite também não vinha (porque uma coisa leva à outra). Eu fiz de tudo praquele bichinho pegar meu peito. Puxei o leite, esguichei na cara dele, insisti tanto que fiquei com o peito todo machucado. Quando ele finalmente gostou da coisa, as enfermeiras aplaudiram e disseram que eu era uma guerreira, que já viram muitas mães desistirem de dar o peito. Eu me achei.
Eu amava o pai do meu filho e nós não estávamos namorando naquela época. Mas ele ficou ao meu lado o tempo todo. Me lembro da primeira noite em que dormi na maternidade. A anestesia acabou e meu corte começou a doer pra caralho. Eu olhava na cama do lado e ele dormia numa tranquilidade, eu não sei porque comecei a chorar muito, chorava por ele, pela dor no corte. Hoje vi que eu estava apavorada com tudo aquilo. Essa é a real.
Me lembro do exato momento em que peguei o joão nos braços e pensei: "pra sempre, cara! eu e você". Lembro do meu pai me beijando a testa e dizendo que sempre soube que eu seria uma ótima mãe. Puta merda, ele morreria oito meses depois. Como eu queria que ele estivesse aqui hoje. Ah, e o vestido rosa. Eu saindo da maternidade com um vestido rosa e um peito cheio de leite. Nos meus braços, um bebezinho franzino e calmo. Parece que faz um século que isso aconteceu.

Mas são exatos cinco anos hoje. Cinco anos e muuuuita coisa. Muita batalha, rotina e troca, principalmente nos últimos três anos. Muito orgulho do cara bacana que você está se tornando a cada dia. Eu e você, São Paulo, escola, trabalho, pulos no sofá. Você tagarela, eu às vezes melancólica. A gente caminhando pela Vila Madalena de mãos dadas todos os dias, descobrindo as árvores e os nomes dos cachorros da vizinhança. Ou lendo livros na Mercearia, ou apostando corrida até o elevador. Recolhendo o lixo na pracinha. Dormindo no meio do filme, cantando e inventando músicas. João, meu amor: por você não há o que eu não faça. Parabéns. Eu te amo.
Para Piera Prandoni

Psicóloga rogeriana, amante de gatos e de todos os bichos, jeito de italiana com um sorriso sempre fácil no rosto. Humana pra caralho. Tinha o dom de fazer as pessoas ao seu redor se sentirem melhor. E ela fez deste dom sua profissão. Incansável, acreditava no ser humano. Acreditava de verdade no bem, no amor, no melhor que há em cada pessoa. Era desprovida de qualquer hipocrisia. Tinha sempre na ponta da língua palavras de fada, sempre assertivas. Gestos discretos. Sem dúvida uma caminhada única e especial. Agora ela se foi. Sinto uma tristeza profunda, como se o mundo ficasse um pouco menos colorido. Trocávamos poemas, falávamos de arte e da beleza das coisas simples. Partiu cedo, como partem sempre as pessoas especiais. Mas onde quer que ela esteja, sinto que ela está bem.
Não há muito o que dizer nessas horas, né? Apenas tentar multiplicar ao máximo o exemplo de generosidade, inteligência e delicadeza que ela deixa. Minha querida Piera, muito obrigada por tudo. Fique em paz.
domingo, 29 de novembro de 2009
Vocabulário
Foi lindo o sarau Vocabulário ontem na Vira Cultura 2009. Entrre outras pérolas, Marcelo Montenegro soltou seu Melodrama Blues, que eu acho do caralho:

"Algumas pessoas acabam se encontrando. E é como se conhecessem desde sempre. Algumas pessoas desistiram de botar suas fichas na máquina e choram assistindo People and Arts de madrugada. E cultivam milhões de novidades pra dizer umas às outras. Algumas pessoas "jogaram fora o guardanapo pra comer com a mão". Fazer o quê. Algumas pessoas decidiram se sofisticar. E produzem coisas importantes. E detestam o trabalho solo do Frejat. Algumas pessoas espremem o cérebro e se divertem. E bolam apelidos engraçados pras pessoas. E nutrem idéias mirabolantes. E seus sonhos grisalhos. E seus blogs sangrando. Algumas pessoas são capazes de elogios desconcertantes. E nunca esquecem o final da piada. E citam cenas inteiras de seus filmes preferidos. E racham garrafas de conhaque só pra assistir ao show dos Bêbados Habilidosos. Que resolveram tocar suas ilíadas vagabundas quase clandestinamente. Assim. Apenas pra algumas pessoas. Que riem de si mesmas como se rezassem. Que insistem em recolher as peças só pra espalhá-las de novo. Algumas pessoas que construíram isso como operárias do próprio privilégio. Que custa caro. As coisas que importam. E as que não se explicam. Algumas pessoas se debatem pra não descuidar da defesa mas desde há muito descobriram que só sabem jogar no ataque. E permanecem saudavelmente inquietas mesmo se o time estiver ganhando. Algumas pessoas se emocionam. E deixam o melhor do seu abandono em cada abraço que fica. Algumas pessoas realmente direcionaram suas vidas. E subiram nos ombros dos seus ídolos e dos seus medos pra poder enxergar depois do muro. Só pra ver aonde a bola caiu. E continuar brincando. Desfrutar desse indescritível prazer que é chutá-la mais longe"
Outras fotos do evento aqui!

"Algumas pessoas acabam se encontrando. E é como se conhecessem desde sempre. Algumas pessoas desistiram de botar suas fichas na máquina e choram assistindo People and Arts de madrugada. E cultivam milhões de novidades pra dizer umas às outras. Algumas pessoas "jogaram fora o guardanapo pra comer com a mão". Fazer o quê. Algumas pessoas decidiram se sofisticar. E produzem coisas importantes. E detestam o trabalho solo do Frejat. Algumas pessoas espremem o cérebro e se divertem. E bolam apelidos engraçados pras pessoas. E nutrem idéias mirabolantes. E seus sonhos grisalhos. E seus blogs sangrando. Algumas pessoas são capazes de elogios desconcertantes. E nunca esquecem o final da piada. E citam cenas inteiras de seus filmes preferidos. E racham garrafas de conhaque só pra assistir ao show dos Bêbados Habilidosos. Que resolveram tocar suas ilíadas vagabundas quase clandestinamente. Assim. Apenas pra algumas pessoas. Que riem de si mesmas como se rezassem. Que insistem em recolher as peças só pra espalhá-las de novo. Algumas pessoas que construíram isso como operárias do próprio privilégio. Que custa caro. As coisas que importam. E as que não se explicam. Algumas pessoas se debatem pra não descuidar da defesa mas desde há muito descobriram que só sabem jogar no ataque. E permanecem saudavelmente inquietas mesmo se o time estiver ganhando. Algumas pessoas se emocionam. E deixam o melhor do seu abandono em cada abraço que fica. Algumas pessoas realmente direcionaram suas vidas. E subiram nos ombros dos seus ídolos e dos seus medos pra poder enxergar depois do muro. Só pra ver aonde a bola caiu. E continuar brincando. Desfrutar desse indescritível prazer que é chutá-la mais longe"
Outras fotos do evento aqui!
sábado, 28 de novembro de 2009
Antes de acodar já estou pensando
Quanto de fato há de mim neste dia?
Explodo em mil palavras sem descanso
Quanto de fato há de mim que eu já nem sabia?
Esqueço qualquer coisa pelo canto
Quanto de fato há de mim nesta porcaria?
Destruo ou mato meu espanto
Quanto de fato há de mim que não destruiria?
Bebo umas e outras e balanço
Quanto de fato há de mim na sua poesia?
Quanto de fato há de mim neste dia?
Explodo em mil palavras sem descanso
Quanto de fato há de mim que eu já nem sabia?
Esqueço qualquer coisa pelo canto
Quanto de fato há de mim nesta porcaria?
Destruo ou mato meu espanto
Quanto de fato há de mim que não destruiria?
Bebo umas e outras e balanço
Quanto de fato há de mim na sua poesia?
Você me oferece domingos secos
enquanto meus sábados gordos
vadiam sozinhos ao luar
Eu te peço nada além do infinito
Eu não te poupo do pouco que você é
Nem te incomodo
Nós somos dois opostos
Que não se atraem
Eu não escolhi
Ser tua
Nem sentir medo
Eu não escolhi
Ter que ir embora
enquanto meus sábados gordos
vadiam sozinhos ao luar
Eu te peço nada além do infinito
Eu não te poupo do pouco que você é
Nem te incomodo
Nós somos dois opostos
Que não se atraem
Eu não escolhi
Ser tua
Nem sentir medo
Eu não escolhi
Ter que ir embora
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Eventos no findi!
Entre trabalho e diversão, tem muita coisa neste findi. Bora agitar, meu povo?
Hoje a noite tem...

Amanhã cedo trabalho neste projeto, que é bem bacana. Lá no Rio Verde:

À noite rola um encontro incrível de poetas e amigos, lá na Vira Cultura, que é um evento da Livraria Cultura. A Fê Dumbra, que dirigiu essa bagunça abaixo, sugeriu que eu tirasse umas fotenhas. Então estarei lá, munida de máquina e filho:

E pra finalizar, blues e churras no domingo, lá na Coletivo Galeria:

A gente sofre mas se diverte um bocado.
Hoje a noite tem...

Amanhã cedo trabalho neste projeto, que é bem bacana. Lá no Rio Verde:

À noite rola um encontro incrível de poetas e amigos, lá na Vira Cultura, que é um evento da Livraria Cultura. A Fê Dumbra, que dirigiu essa bagunça abaixo, sugeriu que eu tirasse umas fotenhas. Então estarei lá, munida de máquina e filho:
E pra finalizar, blues e churras no domingo, lá na Coletivo Galeria:

A gente sofre mas se diverte um bocado.
História 8 capítulo final
O fim do mundo (e da história!)
Esta história desde o começo: aqui!

Érika colocou o roupão às pressas e correu para a porta. A campainha não parava de tocar.
- "Droga, não se pode mais nem morrer em paz!"
Ao abrí-la, Érika se surpreendeu com a visão de um homem alto, louro de olhos azuis com pinta de Brad Pitt e jeito de robô.
- "Pois não?"
- "Boa tarde senhora. Meu nome é Rafael, eu sou representante da seita Nova Era".
- "Desculpa, meu senhor, o mundo tá acabando e eu não tenho interesse algum em garantir meu espaço no paraíso".
- "Não é nada disso. Escuta, nós temos um abrigo subterrâneo que poderá salvar algumas pessoas do fim do mundo. Estamos selecionando pessoas bonitas, inteligentes, com idade apta à procriação. A senhora é uma das selecionadas para estar neste abrigo. Vamos?"
- "O senhor também vai?"
- "Certamente".
Érika fez uma série de perguntas. Quantos iam? Como seria a vida neste abrigo? E esta tal procriação, como funcionaria essa parada? Seria uma várzea sexual, uma suruba geral? Muitos futuros do pretérito depois, aceitou educadamente o convite. Pelo menos não morreria com o resto da humanidade, já estava se achando. E pediu cinco minutos para arrumar a mala. Mas o que levar para um abrigo subterrâneo, deus do céu?
Livros, ipod, frutas secas, vibrador? Aspirina, tampax, lanterna, cobertor? Televisão, rádio de pilha, agenda, desfibrilador?
Colocou tudo que encontrou pela frente e seguiu, assustada.
Não tinha mais nada a perder.
No caminho para o abrigo, Rafael, o anjo-sedutor-brad pitt-robótico não falava uma palavra. Érika olhava para as pessoas nas ruas e entendeu que as pessoas só começam a entender quando estão mesmo no limite. A felicidade é simples.
Viu suicidas, amantes e mães em desespero. Falsos messias, homens-bomba, virgens em demasia. Viu de tudo. Até que pediu para o seu anjo não mais salvá-la.
- Rafael, obrigada pelo convite. Mas não vejo razão para continuar aqui após o fim do mundo. Meu instinto de sobrevivência falou mais alto, mas agora eu vejo que isso tudo é uma bobagem. Morrerei junto com o resto da humanidade, não quero para mim o fardo de ser Eva.
E desceu do carro. Voltou para casa. Encheu a banheira. Colocou Bach na vitrola. E esperou ansiosamente pelo fim.
Mas ele não aconteceu. Milagrosamente, algum fenômeno natural dissipou todos os perigos e a Terra viveria mais alguns milhões de anos. As notícias se espalhavam pelas rádios e tevês, todos comemoravam como se fosse ano-novo. Érika lia o jornal normalmente, apesar das notícias requentadas. Pensava no seu amor, aquilo sim seria o fim do mundo. Apenas uma notícia chamou a atenção da moça: "Seita fanática aglomera 250 pessoas num abrigo subterrâneo improvisado. No momento não há sobreviventes".
Fim
Esta história desde o começo: aqui!

Érika colocou o roupão às pressas e correu para a porta. A campainha não parava de tocar.
- "Droga, não se pode mais nem morrer em paz!"
Ao abrí-la, Érika se surpreendeu com a visão de um homem alto, louro de olhos azuis com pinta de Brad Pitt e jeito de robô.
- "Pois não?"
- "Boa tarde senhora. Meu nome é Rafael, eu sou representante da seita Nova Era".
- "Desculpa, meu senhor, o mundo tá acabando e eu não tenho interesse algum em garantir meu espaço no paraíso".
- "Não é nada disso. Escuta, nós temos um abrigo subterrâneo que poderá salvar algumas pessoas do fim do mundo. Estamos selecionando pessoas bonitas, inteligentes, com idade apta à procriação. A senhora é uma das selecionadas para estar neste abrigo. Vamos?"
- "O senhor também vai?"
- "Certamente".
Érika fez uma série de perguntas. Quantos iam? Como seria a vida neste abrigo? E esta tal procriação, como funcionaria essa parada? Seria uma várzea sexual, uma suruba geral? Muitos futuros do pretérito depois, aceitou educadamente o convite. Pelo menos não morreria com o resto da humanidade, já estava se achando. E pediu cinco minutos para arrumar a mala. Mas o que levar para um abrigo subterrâneo, deus do céu?
Livros, ipod, frutas secas, vibrador? Aspirina, tampax, lanterna, cobertor? Televisão, rádio de pilha, agenda, desfibrilador?
Colocou tudo que encontrou pela frente e seguiu, assustada.
Não tinha mais nada a perder.
No caminho para o abrigo, Rafael, o anjo-sedutor-brad pitt-robótico não falava uma palavra. Érika olhava para as pessoas nas ruas e entendeu que as pessoas só começam a entender quando estão mesmo no limite. A felicidade é simples.
Viu suicidas, amantes e mães em desespero. Falsos messias, homens-bomba, virgens em demasia. Viu de tudo. Até que pediu para o seu anjo não mais salvá-la.
- Rafael, obrigada pelo convite. Mas não vejo razão para continuar aqui após o fim do mundo. Meu instinto de sobrevivência falou mais alto, mas agora eu vejo que isso tudo é uma bobagem. Morrerei junto com o resto da humanidade, não quero para mim o fardo de ser Eva.
E desceu do carro. Voltou para casa. Encheu a banheira. Colocou Bach na vitrola. E esperou ansiosamente pelo fim.
Mas ele não aconteceu. Milagrosamente, algum fenômeno natural dissipou todos os perigos e a Terra viveria mais alguns milhões de anos. As notícias se espalhavam pelas rádios e tevês, todos comemoravam como se fosse ano-novo. Érika lia o jornal normalmente, apesar das notícias requentadas. Pensava no seu amor, aquilo sim seria o fim do mundo. Apenas uma notícia chamou a atenção da moça: "Seita fanática aglomera 250 pessoas num abrigo subterrâneo improvisado. No momento não há sobreviventes".
Fim
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Pinceladas
Certa sensação de impotência diante daquilo que não tem jeito. Antes eu acreditava que tudo era possível. Meu peito anda amortecido. Eu quero arte pura e simples. Eu sonho em estar mais presente, porque tudo passa. Só não passa quilo que a gente guarda. Por isso desfaleço em seus braços. E escrevo sem parar como se pudesse purificar alguma coisa. Acho uma bobagem quase tudo que eu leio. Gosto pra caralho de outras coisas. Amo sem ressalvas. Depois me defendo e digo que qualquer solidão é válida. Me deparo comigo mesma e acho massa. Tenho insônias homéricas e crises de pânico tão previsíveis. Me entupo de serotonina. Acho o equilíbrio um saco. E o desespero demodê. Aprecio bom-humor e tintas fortes. Adoro roxo e fúcsia. Não vejo mais os meus amigos de outrora. Gosto desta palavra, outrora. Vivo apaixonada por palavras. Minha angústia se dissipa quando leio um poema do Marcelo Montenegro. Eu queria acreditar mais na alma. Eu devo ter algum tipo de esquizofrenia. Ou não.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Me liga, babe
Quarta-feira é tão sem graça
Eu no trabalho
No meio do nada
Só você me salva
Quando me liga, babe
Às três de uma tarde qualquer
Cheio de ideias
Um blues aqui
Um verso acolá
Uma HQ pós-tudo
Uma tradução poética
Uma cerveja bem gelada
Planos pro agora e já
Meu dia tá quase no fim
E você ainda vive o ontem
Minha casa quase caiu
Não fosse por você, babe
Pelo seu humor etílico
Sua leveza incondicional
Eu nem estaria mais aqui
Eu resumo, quase durmo
Você me liga e me salva
Você me beija e me lava
A alma.
Eu no trabalho
No meio do nada
Só você me salva
Quando me liga, babe
Às três de uma tarde qualquer
Cheio de ideias
Um blues aqui
Um verso acolá
Uma HQ pós-tudo
Uma tradução poética
Uma cerveja bem gelada
Planos pro agora e já
Meu dia tá quase no fim
E você ainda vive o ontem
Minha casa quase caiu
Não fosse por você, babe
Pelo seu humor etílico
Sua leveza incondicional
Eu nem estaria mais aqui
Eu resumo, quase durmo
Você me liga e me salva
Você me beija e me lava
A alma.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
O Quiroga me manda compartilhar bons sentimentos. Ônibus lotado às sete da manhã. Sonolência é pior que sono. Leio no Blog do Mário que o Gaúcho, segurança ali da Nestor que sempre joga umas partidas de bilhar com a gente, morreu ontem de ataque cardíaco. Respiro fundo, bons sentimentos. Curso sobre como gerenciar pessoas. Eu preciso aprender a me gerenciar um pouco. Coffee-break, bolsa de valores, agenda lotada, feedback. Meu próprio "feedback" me diz que é mais difícil alimentar a alma. Eu não tenho grana para passar a semana. Eu não vou parar e reclamar, eu juro. O Quiroga me mandou compartilhar bons sentimentos. Então, boa semana a todos.
domingo, 22 de novembro de 2009
meaningless
Amanhece e a escuridão vem junto. É mais forte que a luz do sol. Eu suplico pelo ar que me falta, mas quais são os critérios de Deus? Ele deve ter outras prioridades, eu penso. Na ausência total do sentido de estar aqui, o desespero de não estar. Algo ainda me entorpece e me prende. Estar na festa de 5 anos do meu filho, encostar a cabeça no peito do meu bem ouvindo Chet, amanhecer com ele numa livraria. "Tanto Faz", do Reinaldo Moraes de presente. A vida pode sim ser boa. Trabalhar, trabalhar pra caralho, somar e multiplicar. Eu preciso estar aqui, mesmo que não exista sentido algum, mesmo que deus seja esse cara sem critério e que eu insista em flutuar e simplesmente ignorar todo o peso que recai sobre meus ombros.
Passou. Agora é domingo a noite e está tudo bem. Escrevemos os nomes nos convites, um a um. Cinco anos já, nós aqui, eu e você, meu pequeno. Cada vez que eu tento fugir, você segura a minha mão e diz que está tudo bem e me traz de volta. "A felicidade não é alegre", leio no livro do Reinaldão. Dou um beijo longo na sua testa de anjo e apago o abajur.
Passou. Agora é domingo a noite e está tudo bem. Escrevemos os nomes nos convites, um a um. Cinco anos já, nós aqui, eu e você, meu pequeno. Cada vez que eu tento fugir, você segura a minha mão e diz que está tudo bem e me traz de volta. "A felicidade não é alegre", leio no livro do Reinaldão. Dou um beijo longo na sua testa de anjo e apago o abajur.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Folhetim história 7 cap 4
A verdade sobre Mariana e Ana Clara
Leia a história da semana desde o início aqui!

Mariana e Ana Clara despediram-se do pai no caixão. Parecia sereno. "A dor da partida pode até ser doce" - pensou Ana Clara. Amou tanto aquele pai e agora sabia que o amor sempre esteve em seu olhar também, mesmo que ele não soubesse como demonstrar. Ou mesmo que ele não pudesse fazê-lo. No caminho do cemitério pra casa, não disseram uma palavra. As lembranças de uma pessoa que acabara de partir sempre doem fisicamente, como uma vertigem. Cada uma olhava por uma janela do táxi. A cidade parecia envolvida por uma película leve e luzes cinematográficas. Sentiam-se dentro de um sonho, como se tudo passasse a ter uma nova textura a partir daquela ausência. As novas tonalidades e cheiros da cidade se misturavam à antigas lembranças de infância. A imagem do pai no caixão se misturava com a imagem do homem bravo e forte que ele fora um dia.
Ana Clara e Mariana entraram na casa do pai. Tanto a fazer. Roupas para doar, móveis, livros. Não tinham forças e nem sabiam por onde começar.
"Vou fazer um chá", disse Ana quebrando um silêncio literalmente sepulcral.
"Ana, o papai te disse algo, antes de morrer?"
"Ele tentou me dizer, mas não teve tempo. Já não importa mais...ele se foi, Mariana"
"Eu recebi esta carta da minha mãe antes de vir pra cá. Ela deixou com minha tia antes de morrer e prometeu que eu leria e contaria a verdade ao meu em seu leito de morte. Mas não tive tempo de falar com ele. Ele morreu sem saber a verdade"...
Ana Clara puxou o papel da mão da irmã e começou a ler, trêmula:
"Mariana,
Agora que seu pai está no leito de morte, acho que é o momento de vocês todos saberem a verdade. Eu não ficaria em paz se o deixasse partir com esta mentira grudada em meu peito. Espero que entenda porque fiz o que fiz. Foi somente para o seu bem.
Durante toda a vida, seu pai achou que Ana Clara não era sua filha de verdade, mas fruto de um caso que a mãe dela teve com outro homem. A verdade, minha filha, é que quem teve este caso fui eu e você não é a filha verdadeira.
Dr. Marcos, o melhor amigo de seu pai, foi por muito tempo meu amante. Estávamos muito apaixonados e eu ia me separar de seu pai para ficar com ele, mas de última hora não tive coragem. Ele largou a esposa e jamais perdôou o fato de eu não tê-lo assumido. Quando descobriu que tive uma filha, conseguiu fazer um exame de compatibilidade de DNA entre você e seu pai. O resultado obviamente deu negativo, mas na época eu consegui trocar o nome do exame e coloquei como se fosse de Ana Clara.
Seu pai passou a vida inteira achando que Ana não era a sua filha verdadeira. Ele nunca perdoou a mãe de Ana por isso e eu nunca me perdoei por tê-la feito sofrer tanto. Mas eu fiz isso por amor à você, Mariana. Espero que entenda e me perdoe. Por favor, conte a verdade para que ele possa morrer em paz.
Da sua mãe,
Rosa"
Ana Clara tremia e suava frio. Será que, de alguma forma, ele sabia? Por quê teria dito tudo aquilo para ela?
"E tem mais..." - disse Mariana.
Confira o úlimo capítulo desta novela aqui!
Leia a história da semana desde o início aqui!

Mariana e Ana Clara despediram-se do pai no caixão. Parecia sereno. "A dor da partida pode até ser doce" - pensou Ana Clara. Amou tanto aquele pai e agora sabia que o amor sempre esteve em seu olhar também, mesmo que ele não soubesse como demonstrar. Ou mesmo que ele não pudesse fazê-lo. No caminho do cemitério pra casa, não disseram uma palavra. As lembranças de uma pessoa que acabara de partir sempre doem fisicamente, como uma vertigem. Cada uma olhava por uma janela do táxi. A cidade parecia envolvida por uma película leve e luzes cinematográficas. Sentiam-se dentro de um sonho, como se tudo passasse a ter uma nova textura a partir daquela ausência. As novas tonalidades e cheiros da cidade se misturavam à antigas lembranças de infância. A imagem do pai no caixão se misturava com a imagem do homem bravo e forte que ele fora um dia.
Ana Clara e Mariana entraram na casa do pai. Tanto a fazer. Roupas para doar, móveis, livros. Não tinham forças e nem sabiam por onde começar.
"Vou fazer um chá", disse Ana quebrando um silêncio literalmente sepulcral.
"Ana, o papai te disse algo, antes de morrer?"
"Ele tentou me dizer, mas não teve tempo. Já não importa mais...ele se foi, Mariana"
"Eu recebi esta carta da minha mãe antes de vir pra cá. Ela deixou com minha tia antes de morrer e prometeu que eu leria e contaria a verdade ao meu em seu leito de morte. Mas não tive tempo de falar com ele. Ele morreu sem saber a verdade"...
Ana Clara puxou o papel da mão da irmã e começou a ler, trêmula:
"Mariana,
Agora que seu pai está no leito de morte, acho que é o momento de vocês todos saberem a verdade. Eu não ficaria em paz se o deixasse partir com esta mentira grudada em meu peito. Espero que entenda porque fiz o que fiz. Foi somente para o seu bem.
Durante toda a vida, seu pai achou que Ana Clara não era sua filha de verdade, mas fruto de um caso que a mãe dela teve com outro homem. A verdade, minha filha, é que quem teve este caso fui eu e você não é a filha verdadeira.
Dr. Marcos, o melhor amigo de seu pai, foi por muito tempo meu amante. Estávamos muito apaixonados e eu ia me separar de seu pai para ficar com ele, mas de última hora não tive coragem. Ele largou a esposa e jamais perdôou o fato de eu não tê-lo assumido. Quando descobriu que tive uma filha, conseguiu fazer um exame de compatibilidade de DNA entre você e seu pai. O resultado obviamente deu negativo, mas na época eu consegui trocar o nome do exame e coloquei como se fosse de Ana Clara.
Seu pai passou a vida inteira achando que Ana não era a sua filha verdadeira. Ele nunca perdoou a mãe de Ana por isso e eu nunca me perdoei por tê-la feito sofrer tanto. Mas eu fiz isso por amor à você, Mariana. Espero que entenda e me perdoe. Por favor, conte a verdade para que ele possa morrer em paz.
Da sua mãe,
Rosa"
Ana Clara tremia e suava frio. Será que, de alguma forma, ele sabia? Por quê teria dito tudo aquilo para ela?
"E tem mais..." - disse Mariana.
Confira o úlimo capítulo desta novela aqui!
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